06/07/2012

Do todo, quais lembranças ficaram?

Aconchego e descanso


               Nossa memória é o resultado das lembranças que do que vivemos + a maneira como elaboramos estes momentos + o nosso estado emocional durante o momento registrado (tristeza, cansaço, raiva...).
              Todos elementos chegam até nós fragmentados, como peças de um quebra-cabeça e frequentemente nosso estado emocional interfere na qualidade daquilo que registramos e transformamos em memoria. E interferem também na montagem final do quadro que levaremos para o resto da vida. A imagem final, na maioria das vezes, não corresponderá exatamente ao que de fato aconteceu.

               Nem sempre enxergamos o quadro completo com nitidez. É   impossível!
               Muitas vezes, uma situação corriqueira atual aciona uma memória mais antiga que já não foi tão agradável e esta, por sua vez, aciona um mecanismo de autodefesa que já nos bloqueia, parcial ou totalmente, impedindo uma perfeita compreensão do que estamos vivendo no momento atual e criando uma nova memória que já nasce deturpada.
               Outras vezes, o simples cansaço de um dia de trabalho ou o stress de enfrentar um trânsito caótico nos impede, por exemplo, de ouvirmos uma frase completa de alguém que esperou por nós o dia inteiro e registramos apenas parte de um diálogo ou de uma reivindicação de um filho, fazendo com que fiquem "lacunas" na nossa memória e, por outro lado, criando neste filho a falsa impressão de que ele(a) não tem tanta importância para nós ou, pior e mais terrível, que ele não tem importância nenhuma.
               E, a longo prazo, vão se  criando abismos e uma visão deturpada de um passado em comum e surgem atritos que podem destruir relacionamentos que tinham tudo para serem maravilhosos.
               O tempo cura todas as feridas, mas não apaga as cicatrizes, e elas podem ser muito dolorosas. A boa noticia é que, se há amor, se houve bons momentos, basta um pouco de boa vontade para todo um passado ser passado a limpo em pouco tempo e com bem menos trabalho de que poderíamos imaginar. Mas, infelizmente, não sem alguma dor, que pode variar de intensidade de acordo com a memória revivida.
               Sempre há detalhes que nos escapam e, mesmo que lembremos de tudo, talvez aqueles detalhes não sejam tão importantes para nós, quanto o são para os outros envolvidos.
               Nos últimos anos, tenho vivido praticamente só com minha filha caçula e neste dia a dia, temos vivido momentos de muitas cobranças e confesso que muitas vezes me senti injustiçada. E isso doeu muito. Muitas vezes até me senti ofendida e magoada com as palavras dela, criando com isso, novas situações ásperas e doloridas. Eu reagi à agressividade dela com frieza, magoa e silêncio, trazendo um novo distanciamento.
               Por outro lado percebi que muitas vezes tive este mesmo comportamento com meus pais, de cobrar deles as falhas que eles cometeram comigo e com meus irmãos.
               Ao sobrepor o comportamento dela comigo ao meu próprio comportamento com meus pais consegui, finalmente, entender não só como a nossa memória é construida, mas também que ninguém erra ou acerta sozinho. E que muitas vezes não nos colocamos no lugar de nossos pais ou nossos filhos (ou outras pessoas que estejam participando do nosso presente).
               Quando finalmente compreendi que a agressividade dela, nestes momentos, não era gratuita, mas sim fruto de algumas cicatrizes que ainda doem muito nela e que estas cicatrizes são frutos de feridas antigas que foram abertas, no passado, involuntariamente e por uma visão parcial daquilo que foi vivido lá no passado, pude fazer uma escolha consciente: abrir mão de ter razão sozinha e passar a prestar atenção ao que ela tem a me dizer.
                Não vou dourar a pílula, não. Foi extremamente doloroso descobrir que eu não fui, nem de longe, a mãe perfeita e amorosa que eu pensava que era, mas foi extremamente libertador descobrir que a culpa não foi totalmente minha.
                Foi extremamente libertador descobrir que a minha filha me achava uma mãe ausente porque quando ela enfrentou as mudanças da adolescência e precisava de uma amiga ou quando ela tinha um pesadelo e precisava de alguém em quem ela confiava para fazê-la relaxar e enfrentar e superar o medo, eu não estava lá, mas estava trabalhando para suprir as suas necessidades básicas de abrigo e alimentação. É claro que o fato de eu estar trabalhando não preenche o buraco que ficou pela ausência da mãe/amiga e, provavelmente, se ela tivesse podido escolher, ela escolheria uma vida mais simples, mas que a mãe estivesse mais tempo com ela, para suprir as carências emocionais do desenvolvimento dela.
               Não há como voltar a passado e mostrar à ela ou ao seu irmão ou aos meus pais como foi que as coisas aconteceram a cada dia das nossas vidas.
               Nem eles podem mudar ou justificar as escolhas que fizeram, nem precisam.
               O amor que sentimos uns pelos outros nos fez ficarmos unidos apesar de tantos sentimentos e memórias conflitantes.
               Mas a partir da compreensão que as memórias que criamos a cada dia são como quebra-cabeça e que sempre há a possibilidade de perdemos 3, 4 ou mais peças, gravando apenas parte do que realmente está acontecendo e que cada um de nós elabora estas memórias de um modo muito particular, de acordo com a nossa propria maneira de pensar e sentir, podemos começar a construir um relacionamento saudável, perfeito e respeitoso.
               Constantemente ouvi minha filha dizer que eu não conseguia enxergá-la, mesmo quando estava olhando para ela. Intimamente, sem abrir a minha boca, eu respondia que ela também não estava me enxergando e me compreendendo. E nestas horas me peguei lembrando de quantas vezes eu mesma não compreendi meus pais, nem eles à mim.
                Todos estávamos certos, cada um assimilou, daquilo que vivemos, uma parte dos fatos e elaborou como pode, usando parâmetros próprios e tendo que lutar com sentimentos que no dia seguinte já não estariam ali, mas que naquela hora mudaram a maneira de se compreender o momento.
               E todos nós temos uma espécie de "quarto do pânico interior", um mecanismo de defesa que faz com que nos fechemos dentro de nós mesmos, temporariamente, para nos proteger da dor. E é nessa hora que acontecem a maioria dos nossos erros: deixamos de "pegar" peças importantes do quebra-cabeça fazendo com que cada um de nós tenha uma lembrança diferente e única de um mesmo acontecimento.
              Quando compreendi que simplesmente as lembranças da minha filha eram diferentes das minhas e que, por diferentes razões, ela não tinha uma memória completa de fatos passados, assim com eu também  não, me tornei mais flexível e sensível às suas dores. Ela, por sua vez, passou a me ver não como antagonista, mas sim como alguém em quem ela pode finalmente confiar. E pode perceber as lacunas em sua própria memória e optou por dar um passo de cada vez para reorganizar as suas próprias emoções.
               E estas descobertas eu incorporei ao modo como encaro a vida e os relacionamentos.
               Sabendo que mesmo que 2 vivam uma mesmíssima situação cada uma interpretará e registrará os fatos a seu modo e as duas estarão certas, fica mais fácil entender e aceitar as diferenças e fica muito mais fácil ainda um consenso e uma convivência tranquila e feliz.
               Ninguém é dono da verdade, ninguém é senhor absoluto do passado, ninguém pode afirmar com 100% de certeza que lembra de tudo o que aconteceu, até porque as palavras não ditas e os fatos anteriores aos acontecimentos também fazem parte da construção dos fatos, já que fazem parte da bagagem emocional dos envolvidos e não podemos ler o interior de ninguém. Podemos apenas supor os motivos que os levaram a agir como agiram.
               Podemos afirmar, sim, que lembramos de como nos sentimos na ocasião e de qual quadro se formou em nossa mente a partir dos fatos vividos em comum, de como assimilamos.
               E a partir de uma troca franca e aberta, reconhecendo as nossas próprias limitações e as limitações daqueles que nos cercam, poderemos construir um futuro tranquilo e seguro, individual e coletivamente.
               Não tenha medo de olhar o passado. Pode ser assustador e doloroso, mas vale muito a pena.
               E não se prenda muito tempo por lá, afinal o presente passa rápido e há muito o que ser vivido e descoberto.
               Lembre-se sempre de que cada indivíduo é riquíssimo por si mesmo e as diferenças nos tornam únicos e muito especiais.
               Só eu sou eu e só você é você.
               Não há ninguém no mundo igual à mim.
               Não há ninguém no mundo igual à você.

                                        Gisele Fiaux

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8 comentários:

  1. Oi, Gisa. Relações entre pais e filhos são sempre desgastantes, mas sabendo ouvir o outro lado tudo fica mais fácil. O importante é que nunca é tarde para aprender a fazer a vida diferente. UM abraço!

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    1. Oi, Bia. Para te responder tive que escrever um novo comentario. Meu note não está funcionando bem e não está carregando a página direito.
      O texto vai muito além da relação entre pais e filhos, mas é verdade: nunca é tarde para aprender a fazer a vida diferente. Entre amigos, entre pais e filhos, entre colegas de trabalho e até entre fieis de uma mesma igreja. Estejamos sempre atentos uns aos outros para fazer a vida mais leve e agradável.
      Um grande abraço.

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  2. Querida Gi, este texto parece ter sido escrito para o momento que vivo. Eu vou ler e reler mais vezes, pq faz muito sentido para mim, levando em consideração tudo que eu e minha filha já passamos, como interpretamos e agimos. Quem sabe ela precisa que eu dê mais atenção às diferenças dela. Vc tem razão, cada um passa pelos mesmos problemas de maneira diferente.

    Beijos

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    1. Minha querida. É verdade! Neste ponto temos historias muito parecidas e vai por mim, além de todas as dificuldades em qualquer relacionamento, nosso filhos ainda têm que lidar com o fato de se sentirem divididos entre os pais, tendo que escolher entre um e outro, entre agradar ou desagradar um ou outro. Isso dá um nó na cabeça deles.
      Olha, querida. Talvez esta semana ainda eu tenha que colocar meu note no conserto. Para te responder estou usando o formulário de comentários ao invés do link de resposta. Mas se quiser trocar ideias você tem meu email. Ou pode mandar pelo formulário de contato. se eu demorar a responder já sabe, note no conserto, rsrsrsrs.
      Um beijão.
      (PS fizemos uma limpeza no disco rígido que apagou alguns sistemas que não sabemos restaurar, rsrsrsrsrs. A Marine está se sentindo culpada, mas poderia ter acontecido comigo, rsrsrs).

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  3. Gi, uma vez um amigo metido a entendido foi arrumar o meu disco rigido e perdi... TUDO! Mas sobrevivi!

    BEIJOS

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    1. rsrsrsrsrsrsrsrsrsrs.
      Nem me fale, querida, já passei por isso. Desta vez está dando erro no explorer.exe, mas estamos conseguindo driblar. Só que também não estava carregando nenhuma imagem na internet. Imagine abrir o blog e não achar nada, os álbuns Picasa e ... nada. Afh! que desespero. Fiz uma pesquisa básica e consegui resolver, rsrsrsrs. Mas o tal problema no explorer.exe, vou pedir socorro, mesmo correndo o risco que você correu, kkkkkkkkk.
      Valeu, amiga, um beijão.

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  4. Respostas
    1. OI, linda. Dei uma repaginada no Aconchego personalizando os comentários e descobri que alguns foram enviados a seus autores.
      Que bom que você veio.
      Aproveitei para reler meus textos e os comentários dos amigos.
      Não tem tanto tempo, mas que saudade!!!!!!!
      Beijão, minha amiga.

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