14/08/2021

Desapega, desapega!



Desapega, desapega!

          Não é raro de acontecer que um trecho de uma música muito tocada, um pedaço de anúncio, uma frase ou um slogan, passem a fazer parte do nosso cotidiano de tal forma que se tornam chavões para ilustrar uma crença ou situação.
          Quem não se lembra da Lei de Gérson, dos trezentos e cinquenta quilômetros, da "Estrela brasileira no céu azul" e por ai vai. 
          Tanta coisa, mesmo agora, nos lembram de momentos vividos e lições aprendidas.
          Esses são mesmo do baú, mais existem outros que as gerações mais recentes podem muito bem lembrar. 
          Por exemplo, será "que a poupança Bamerindus continuaria numa boa", se o banco ainda existisse?
          E o tal "Plim, plim vem ai"? Quem aguenta?
          É engraçado notar como as coisas fazem recordar lugares, pessoas, bons ou maus tempos.
          Atualmente o que me verruma a mente é o tal do "desapega, desapega".
          Sem brincadeira, de vez em quando eu me pego repetindo para mim mesma o tal lema de jornal. 
          Eu, como tantas outras pessoas, me apego a tudo: os lugares onde moro, as pessoas com quem convivo, os objetos que me trazem lembrança de outros tempos.
          Sempre que nós vamos ao nordeste (Recife), gostamos de passar em frente ao lugar onde, um dia, estava a casa em que fomos criados.
          Nada resta dela, mas as recordações são muito fortes e fazem parte da nossa vida.
          Meu irmão costuma pedir licença aos novos donos e entra para recordar...
          Hoje ela está menor e bem diferente. 
          No entanto a sabedoria está no desapego.
          Já perceberam que nós usamos muito de "meus, minhas"?
          Meu carro, minha casa, meu trabalho e até minha faxineira.
          O "desapego" nos lembra que nada disso é nosso.
          Quando a morte vem, no mesmo instante tudo isso fica.
          Tudo!!! E muitas vezes inacabado.
          Então, por que o apego?
          Quem já viu o filme "Deixados para trás" lembra muito bem que dos arrebatados só restaram as roupas que usavam na hora.
          Saramago dizia que nem os filhos são nossos, são apenas empréstimos.
          Gibran Khalil Gibran já dizia que "Os filhos não são nossos; são filhos da ânsia da vida por si mesma".
          Isso não é só dramaticamente literário; é real. 
          Considero que o melhor de morrer é deixar tudo para trás, inclusive esse inútil sentimento de posse.
          A única coisa que sei (ou acredito saber) é que o outro lado é bom.
          Como sei? 
          Não sei. Mas, com certeza não existirão "Meus, minhas".
          Estaremos livres como pássaros e felizes, sem nada que nos prenda.
          Aqui vamos guardando relíquias, que serão inúteis um dia.
          Sempre quis ser uma árvore frondosa e de raiz bem forte.
          Mas, Deus determinou que passasse a maior parte da minha vida como plantinha áerea/aquática com a raiz exposta.
          As plantas nos ensinam.
          E já que não consegui ser uma árvore na montanha, fico feliz por ser uma plantinha de raiz aquática, sempre verdinha e pronta a ser mudada de um lado para outro.
          E cumprindo a sua missão de tornar o mais agradável possível o ambiente em que sou colocada.
                Edna de Vasconcelos.




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